sexta-feira, 27 de março de 2009

Belle michê ( Biografias Horizontais IV)


Visto de longe, parecia mais um cara desses que só alcançam uma ereção completa quando levantam um peso exorbitante no supino. Mas, visto de perto, tinha-se a certeza. Alto, moreno, corpão sarado, enfim, todos os dotes corporais almejados por uma multidão de mulheres – ou não – afoitas por uma louca noite de sexo ardente e selvagem. Logo que começou a fazer programa, ele estava disposto a atender somente mulheres, ou, no máximo, casais modernos e descontraídos. Era tudo um grande barato. Começou a freqüentar lugares caros, comprou um carro 0 km e fumava um baseado às vezes – mas só de leve. Certo dia, ele recebeu uma proposta tentadora e aceitou sem pestanejar. Um empresário casado de caráter reto e reputação ilibada o havia convidado a satisfazer seus desejos mais ocultos – ou, talvez, nem tanto. Enquanto não chegava a hora do encontro, ele se perguntava o quão infeliz devia ser aquele cara. Escondia-se de todos e, principalmente, de si mesmo. Encontraram-se em um bom motel da cidade e, para sua surpresa, foi uma experiência surpreendente. Houve apenas sexo. De um modo inesperadamente intenso, mas nada mais que sexo. A única palavra que fora ouvida em meio a alguns gemidos foi “ belle michê”. Algum tempo depois, o cliente se vestiu de forma automática e compenetrada, tão rápida quanto se havia despido, deixando transparecer a habitualidade da conduta. O rapaz ficou mais um tempo na cama, totalmente sem roupa e despido de muitos pudores. Ele sabia que podia ser muito mais do que um garoto em busca de dinheiro. Ao contrário do que esperava viu que aquele homem no quarto também não era por inteiro. Tampouco teve espasmos de felicidade por finamente, estar supostamente mostrando sua verdadeira face. Percebeu que a máscara do ator pode ser, na verdade, um molde harmônico de sua aparência. E que sua face nua pode ser o reflexo de uma máscara invisível. Acabava de sair daquele quarto de motel um garoto decidido a enfrentar todas as suas batalhas. Deixava seu passado ignoto para mergulhar no profundo abismo do futuro. Mesmo sem as dores do parto, nascera naquele momento o belle michê. Olhos gigantes e lábios famélicos lambuzados de um instigante porvir.

P.S.: antes que alguém pergunte, ou não, gostaria de ressaltar que não se trata de um texto autobiográfico (: .
Faz parte de um conjunto de crônicas e poesias de minha autoria, chamados "biografias horizontais"...
Para quem tiver interesse, nas postagens mais antigas, têm também as biografias I, II e III.
Grande abraço aos meus leitores e amigos.

23 comentários:

  1. Que texto lindo!!!
    Continue assim...
    Um abraço,
    Rico E

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  2. Arrebentou meu véio! Ficou delicia de ler... Parece que voce conhece sabe? De tao real!

    abraço

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  3. Muito bom!! Gostei!! É claro, q como atriz, fiquei imaginando a filmagem de um curta com ele...rsrs Vc poderia ser um bom roteirista!!!!
    Tem muito talento tbm viu?!
    Beijo!

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  4. Roteirista... eu estou mesmo precisando de um roteirista... ;)
    A-DO-REI
    Bjão, Ney!!!

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  5. Uau!

    É assim mesmo: nos vestimos o tempo todo de máscaras que visam mostrar aos outros não o que somos, mas o que querem que sejamos. Vivemos de conveniências.

    Dói mostrar quem somos. E nem todos estão preparados para isso.

    Belo texto.

    Beijos.

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  6. Nooossaa!!!

    Você merece escrever um livro!!

    Juro por Deus!!

    ;)

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  7. Muito bem escrito...mas se fosse autobiografico , só a ti te dizia respeito das tuas escolhas na vida!
    boa semana, beijo meu

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  8. ola vim visitat-te e gostei
    uma boa semana para tiu
    bjs da naty carlos

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  9. O sol rasga os panos do horizonte
    Em pacífico brilho de sua magnitude…
    Cadenciado ondular que em mar bronze,
    Excelsa beleza no marulhar da virtude!

    A rocha na ânsia do dia, bebe sedenta do mar,
    Firmada num profundo e desigual chão azul …
    Cristalizadas águas reflectem o planar,
    Das majestosas e imperais… gaivotas do sul!

    Gostava que comigo
    Desse asas á sua imaginação,
    No… “Portal da rocha… penedo do guincho!”

    Um bom fim-de-semana,
    Com muita inspiração
    E na mente… um sorriso!

    O eterno abraço…

    -MANZAS-

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  10. Caramba! Ficou muito bom! Em pensar que isso realmente acontece por aí, né? :S

    Eu ia mesmo perguntar se o texto se referia a você, mas já foi respondido.. ehehe

    Beijo!!

    ps: To seguindo!

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  11. Olá!!!
    Obrigada pelo elogio!!
    Faz um tempinho que não atualizo o blog, mas agora terei mais tempo para cuidar dele!!

    Adorei suas poesias... rimas muito boas!! Os quadros são bem específicos tb!!

    bjs e obrigada pela visita!!

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  12. Nossa...adorei o texto....vamos publicar um livro!! Deu vontade de ler mais!
    Ah as aulas de como se divertir no ônibus estão a disposição!!
    ;*

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  13. Olá...
    Lendo seu blog me lembrei daquele pedacinho de poema do Fernando Pessoa:

    "Para ser grande sê inteiro"..é o que você é nesse blog: inteiro.
    Especial passar por aqui. Obrigada pela visitinha na varanda..
    Dias felizes!

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  14. Como todos os comentários acima, eu também não tenho como fugir do elogio: um belo texto. Agradavelmente simples e, ainda assim, instigante e profundo. Gostei muito da sua conclusão, de fato, uma olhada por baixo após a cortina ter dado por encerrada a peça. Na fronteira entre máscaras e um suposto sujeito de sempre só há uma linha muito mal traçada, ou com tuas próprias palavras o "profundo abismo do futuro". Sabe-se lá quantas máscaras devemos tirar do armário. São tantas. Desde o drama de viver em comunidade até as comédias pastelão dos acontecimentos. Fica a certeza de que o peso da mudança e da aceitação é grande, por vezes demais. Creio que não é insuportável. Resta o treinamento diário para decorar as falas da vida ou a criatividade das improvisações. Seu texto, Roberto, como já mencionado, é um roteiro que desfila bem por qualquer ato ou enquadramento. Parabéns.

    Agradeço sua visita no humilde UDEIN e as portas estão sempre abertas para um bom debate.

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  15. O blog deu uma super evoluída, heim? Tá bastante atrativo! Tem até um sistema de Feed ali do lado ("Minha lista de blogs"), fiquei surpreso ao ver a atualização do Contextos... porque faço meu RSS na mão e só quando lembro (pré-histório, mas é o único jeito pelo blogger.com.br, pois eles não disponibilizam tal ferramenta), rs! Fico muito tempo sem visitar e escrever algo, culpa esfarrapada do trabalho... Gosto muito das crônicas do "Biografias Horizontais", mostra o que geralmente temos medo ou vergonha de dizer! No texto acima é o que fica exposto como um osso quebrado: somos um iceberg, e a maior parte de nós está encoberta pelo oceano. Abração!

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  16. Passei para desejar uma óptima Páscoa, com direito a tudo o que merece!

    Beijocas doces!

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  17. Nossa...adorei!
    Tb sou fã e leitora assidua! =)
    bjo*

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  18. Gostei imenso do texto e agradeço tua visita.
    Vou acompanhar tuas letras!
    Beijinhossssssssss

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  19. Amigo...
    lindo o trecho do seu poema q vc deixou lá no meu blog...Onde encontro o mesmo na íntegra?

    Adorei sua particiapçaõ tah?
    Beijossssssssssss

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  20. oooi, sim euy sei da música Meu eu em vc...rs Conheço mas na voz de Paula Fernandes, e é inspirada nela opost todo...rs

    beijos

    Apareça seeempre

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  21. Gostei muito. Você escreve com perfeição.
    Com toda certeza acrescenta muito aos nossos dias.
    Vlw.

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  22. Cara, depende de máscara, pois acho que os dois são atores, pois vai dizer que alguém sente prazer em sem objeto sexual do outro?

    Mas pelo menos, o menino viu que poderia ser mais do que um "mero" objeto da fantasia de outrem...

    Fique com Deus, menino Roberto.
    Um abraço.

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Obrigado pela visita. Espero que tenha tido uma boa leitura. Volte sempre... abraços!