sábado, 26 de novembro de 2011

Fugitivo


E não quero nada além
Do que preciso ou mereço,
Ser teu e não ser de ninguém,
Não te ter aqui em meu endereço.
Gosto de teus momentos marcantes
Querendo decifrar os meus segredos,
Mas me basta tua presença efêmera,
Teu adeus e o recomeço.
E não mais olhares nem meias palavras,
Nem abraços nas madrugadas frias,
Quero cigarros e portas abertas,
Encontros incertos e camas vazias.
Quero a incerteza do desencontro,
Sem beijos molhados, sem mágoas, sem prantos,
Sem conversas prolongadas e desajustadas,
Não quero mais nada,
Sem amor, sem encanto.

P.S. Esse poema já foi meu. Hoje, não mais.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Nudez

Nasci nu,
Mas a vida me vestiu de um jeito estranho,
Roupas pálidas com cortes imperfeitos,
Capas bordadas de um colorido sem tamanho.
Estilista excêntrica e deselegante,
Me despe com a pressa de um amante,
E me cobre depressa com outras possibilidades.
Essa vida que me ilumina com os holofotes da noite,
É a mesma que me esconde nas esquinas das cidades.
Cresci nu,
Mas tive que cobrir meu corpo com imagens,
Modelos que muitas vezes não me serviam,
Colares tais quais coleiras que me enforcavam.
Tive de usar sapatos apertados e alguns pés de palhaço,
Tive que fantasiar meus ideais para não assustar os que olhavam,
Por diversas vezes cheguei a ser coadjuvante do meu próprio espetáculo,
Só para não escancarar minha nudez.
Mas o tempo foi me ensinando
Que eu só devo vestir o que me faz bem,
Que os olhares oblíquos sempre me perseguirão,
E eu não quero nada além do que me convém.
Hoje visto roupas próprias, sem colares e sem disfarces,
Trago sempre a face nua,
E já não perco tanto tempo escolhendo o que usar,
Pois se eles oprimem minha nudez,
Também minhas vestes irão limitar.
Deixo que o vento siga seu curso,
Morrerei nu.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Signos


Os olhares nunca se cruzaram,
Mas os dedos deixam tudo às claras,
A expectativa do encontro,
Um pouco de vinho e algumas palavras.

Um oceano inteiro de distâncias,
Cada qual com suas reentrâncias e suas rotinas,
Unidos em silêncio por uma rede invisível,
Desbravadores do mundo e de suas esquinas.

Palavras lançadas ao sabor do vento,
Na esperança de levá-las até os atentos ouvidos,
Cada frase desvela dois livros abertos,
Um convite ao mistério do desconhecido.

Diferenças que saltam aos olhos desencontrados,
E a afinidade que aflora por entre os iguais,
Elocubrações que transpassam os limites das horas,
E o desejo que ultrapassa as previsões zodiacais.

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.

P.S.: essas palavras foram lançadas para o outro lado do atlântico. Pode pegar, elas são suas...

domingo, 14 de agosto de 2011

Juris Tantum


Gravatas de seda,
Caretas, calhordas,
Retóricas obesas,
Altezas hipócritas,
Pedestais de sapatos,
De bolsas, de carros,
Opulenta riqueza,
Sorrisos forçados.
Línguas amoladas,
Cretinas, nefastas,
Barrigas protuberantes,
Maus amantes,
Mal amadas.
Dentes entreabertos,
Gulosos, perversos,
Olhares de desprezo,
Bocas moles,
Dedos tesos.
Despachos de ternos,
Profetas da descoberta,
Protagonistas do inferno,
Reis da merda.

P.S.: Essa é uma singela homenagem àqueles que não fazem jus a essa causa tão nobre que é lutar pela justiça. Os ilustres homenageados são ilibados juristas que circulam pelos pretórios e tribunas por aí afora. São colegas de outrem. Meus não.

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A Loba - Sobre mulheres e outros labirintos


Amante da noite e dos mistérios da rua,
Abraça sem pudores para aquecer a ninhada,
Astuta e destemida para as lutas do dia,
Perspicaz para enfrentar as feras da madrugada.

Tem a ternura da mãe que se empresta ao filho,
E o sangue fervente dos que têm a coragem,
Tem os olhos e as danças de uma fera no cio,
Intimida os pequenos com seu instinto selvagem.

Com o dom protetor de quem lambre a cria,
Ela arrasta as tristezas por onde passa,
Estrutura seu bando com tamanha harmonia,
Não precisa de macho, pois também vai à caça.

Corre nua pelas matas, percorre novos caminhos,
Já não teme seus moinhos e é dona de suas palavras,
Tem na pele as cicatrizes dos que amam sem medidas,
Vai curando as feridas e desvendando suas ciladas.

À Carolina Pimentel... que de tão grande, não cabe em um poema, mas que de tão intensa, tantos poemas lhe cabem.

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Curvas - Sobre mulheres e outros labirintos.


A luz intensa que aturdia os corpos,
A penumbra marcante que encobria os pudores,
E lá elas estavam.
Em meio a olhares atônitos e libidinosos,
Entre pernas e mãos e linguas e lábios,
Um convite para o universo indefinido da mulher.
Eram movimentos de serpente ao dar o bote certeiro,
Eram desejos que explodiam como um vulcão traiçoeiro.
Os nãos se tornaram obsoletos
E os sins romperam os medos,
Foram bundas e peitos e coxas e dedos.
Cada qual com suas reentrâncias e suas aspas,
Cada uma com seus avessos e com suas ciladas.
Eram bocas abertas contemplando a paisagem,
Os movimentos ariscos de uma gata selvagem.
Eram homens disformes diante de tantas curvas,
Tantos beijos que deixaram as palavras mudas.

Enfim... just for you!

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço!

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Noite de São João


A palavra lançada ao desconhecido,
E a resposta ininteligível,
Os versos soltos inspirados pelo acaso,
E o encontro inesperado e aflito.
Foram tantos beijos encharcados de desejo,
E tantos medos subentendidos,
Alguns momentos regidos pelo silêncio,
Algo entre o atônito e o aturdido.
Uma rede invisível afastava os olhares,
E deixava os sorrisos desapercebidos,
Mas o afã de enfrentar o perigo covarde,
Derrubou as barreiras do outrora intransponível.
Era noite sem brilho, madrugada fria,
E acabei me embrenhando no indefinido,
Reticente e calmo fui me aproximando,
Fui chegando bem perto e fiquei envolvido.
Não pretendo fazer manobras que me deixem em perigo,
E tampouco elocubrar para o além do que for possível,
Mas não temo algumas quedas que porventura me aflijam,
Vou pular de cabeça no doce abismo do desconhecido.

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.

P.S.: esse poema é todo seu, viu?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Navegante


Sei que há um porto seguro,
Não vejo seu norte,
Nem sigo seu rumo,
Repouso calmamente em turbulentas águas
E confio minha sina numa búlssola biruta,
Tão indecisa, porém precisa.
Corajoso capitão de um barco de papel,
Deixo amores e dores em cada cais,
Já não temo os labirintos do mar,
Já não naufrado nas profundezas do céu.
Sempre que o escuro me intimida,
Apanho lá no fundo uma estrela atrevida,
E meu caminho se enche de luz,
E os bons ventos voltam a soprar
Rumo ao desconhecido,
E no mais inóspito dos esconderijos,
Planto flores, colho amigos
E faço meu lar.

Coimbra, 08/02/2010.

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço!

domingo, 22 de maio de 2011

Sobre mulheres e outros labirintos - Os desertos das Anas...


Foi um faz-de-conta bem excêntrico,
Algo entre Tarantino e David Lynch,
Algumas noites de desassossego,
E o desejo que saltava dos olhos.
Eu era uma boa dose de conversa,
Bebida fina, mas que não saciava,
E no afã de aplacar a sede arfante,
Procuravas em outros copos a luxúria da embriaguez.
Mal sabias que eu queria muito mais do que conversas,
Queria o silêncio sonoro da tua boca na minha,
E além de ser a amiga para as noites quentes,
Desejava ser a mulher para tuas noites frias.
A proximidade do teu corpo me deixava aturdida,
E doía poder desfrutar de tua intimidade consentida.
Deixei de perceber a proposta de outros olhares,
Tive na mão alguns cantis, mas essa água já não me bastava,
Minha sede era tão grande que mergulhei em teu oásis falso,
Nadei no seco e afundei no nada.
Estou aprendendo a beber de outras águas,
E a não regar os buracos sem sementes,
Ainda tenho muita sede para matar,
Aceito os cantis e seus pretendentes.

"Troquei um cantil por um oásis falso, tive sede..."
(Ana Emília Primo Cavalcanti)

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.

domingo, 15 de maio de 2011

O baile


A mulher era firme,
Não me dava bandeira,
E eu mendigando um sorriso,
Lhe dizia besteiras.
Se a chamava pra dança,
Ela logo saía,
Outro homem chegava,
E meu peito doía.
Mas o tempo não espera,
Foi daí que um dia,
Avistei uma moça
Que em um canto sorria.
Eu cheguei bem mais perto,
E a convidei pra dançar,
Ela disse: "por certo",
E flutuamos no ar.
A outra moça lá estava,
Com sua taça vazia,
O seu semblante já não me alegrava,
O seu perfume já não me aturdia.
E eu dançei feito um mestre-sala,
Feito um pierrô que vê sua colombina,
Logo o dia raiou e o baile terminava,
E eu ainda nos braços daquela menina.
Ela foi ao banheiro e voltou sorridete,
Deu-me um beijo dengoso e me entregou um bilhete,
Deu adeus bem depressa e nem disse seu nome,
Mas deixou no bilhete o seu telefone.

"que não seja imortal, posto que é chama..."

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.