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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Flores horizontais ( biografias horizontais V)


Todas as tardes ao pôr do sol
Apareciam na janela
As murchas flores da noite.
Ora de uma palidez sorumbática,
Ora de um pretume sombrio,
Mas sempre despetaladas e apáticas,
Eram talos de espinhos cuja rosa se perdera,
Restando uma tenra lembrança
Perceptível nos olhares profundos e lânguidos.
As janelas eram iluminadas pelos néons
E pelo brilho gelado dos rostos lustrosos.
De longe, via-se os contornos disformes
Das putas inverossímeis,
Amantes mal amadas das frias madrugadas,
Peitos e pernas perambulantes nas calçadas,
Mulheres da vida ( nada fácil )
Que sonham e sofrem como qualquer outra.
Que levam bofetadas da sorte e são espancadas pelo tempo.
Que são marcadas a ferro pelos currais do mundo.
Mas não desistem de lutar.
Mas não desistem de amar.
Pois são mulheres, acima de tudo.


P.S.: A imagem acima é de um Artista Plástico chamado Saulo Mota. Quem se interessar em conehcer melhor seu trabalho é só acessar o blog: http://saulomotaartistaplastico.blogspot.com/.

Grande abraço a todos os meus leitores.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Belle michê ( Biografias Horizontais IV)


Visto de longe, parecia mais um cara desses que só alcançam uma ereção completa quando levantam um peso exorbitante no supino. Mas, visto de perto, tinha-se a certeza. Alto, moreno, corpão sarado, enfim, todos os dotes corporais almejados por uma multidão de mulheres – ou não – afoitas por uma louca noite de sexo ardente e selvagem. Logo que começou a fazer programa, ele estava disposto a atender somente mulheres, ou, no máximo, casais modernos e descontraídos. Era tudo um grande barato. Começou a freqüentar lugares caros, comprou um carro 0 km e fumava um baseado às vezes – mas só de leve. Certo dia, ele recebeu uma proposta tentadora e aceitou sem pestanejar. Um empresário casado de caráter reto e reputação ilibada o havia convidado a satisfazer seus desejos mais ocultos – ou, talvez, nem tanto. Enquanto não chegava a hora do encontro, ele se perguntava o quão infeliz devia ser aquele cara. Escondia-se de todos e, principalmente, de si mesmo. Encontraram-se em um bom motel da cidade e, para sua surpresa, foi uma experiência surpreendente. Houve apenas sexo. De um modo inesperadamente intenso, mas nada mais que sexo. A única palavra que fora ouvida em meio a alguns gemidos foi “ belle michê”. Algum tempo depois, o cliente se vestiu de forma automática e compenetrada, tão rápida quanto se havia despido, deixando transparecer a habitualidade da conduta. O rapaz ficou mais um tempo na cama, totalmente sem roupa e despido de muitos pudores. Ele sabia que podia ser muito mais do que um garoto em busca de dinheiro. Ao contrário do que esperava viu que aquele homem no quarto também não era por inteiro. Tampouco teve espasmos de felicidade por finamente, estar supostamente mostrando sua verdadeira face. Percebeu que a máscara do ator pode ser, na verdade, um molde harmônico de sua aparência. E que sua face nua pode ser o reflexo de uma máscara invisível. Acabava de sair daquele quarto de motel um garoto decidido a enfrentar todas as suas batalhas. Deixava seu passado ignoto para mergulhar no profundo abismo do futuro. Mesmo sem as dores do parto, nascera naquele momento o belle michê. Olhos gigantes e lábios famélicos lambuzados de um instigante porvir.

P.S.: antes que alguém pergunte, ou não, gostaria de ressaltar que não se trata de um texto autobiográfico (: .
Faz parte de um conjunto de crônicas e poesias de minha autoria, chamados "biografias horizontais"...
Para quem tiver interesse, nas postagens mais antigas, têm também as biografias I, II e III.
Grande abraço aos meus leitores e amigos.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Biografias Horizontais II


Sou puta! Respondia sem pestanejar quando questionada sobre sua profissão. Isso não era nenhuma vergonha. Ela jamais roubou. Baseados eram raridades que serviam apenas para amenizar aparências hostis. O pior em trabalhar com sexo é que pessoas bonitas geralmente o conseguem de graça. Não era apenas o dinheiro que a estimulava, mas também o prazer. Um orgasmo múltiplo era sua remuneração mais desejada. Ela não era ninfomaníaca, simplesmente gostava de se sentir preenchida. Para ela, sua profissão era a mais completa de todas. Trabalhava, literalmente, com prazer. Estabelecia sua própria jornada e os honorários não eram ruins. Fazia faculdade de Direito pela manhã e, o que por sinal ela adorava, podia fazer um amplo trabalho social. Afinal de contas, indivíduos sem sexo ficam extremamente depressivos e/ ou agressivos. Ela não oferecia só sexo. Havia um poderoso divã no meio de suas pernas. Ela abria o óbvio e os homens escancaravam o mais oculto de seus sentimentos, desejos e frustrações. O sorriso dos clientes a agradava muito. Era o sinal de um trabalho bem feito e de mais um dever comprido.

“ trouxeram um trem carregado de putas inverossímeis, fêmeas babilônicas adestradas com recursos imemoriais e providas de toda espécie de ungüentos e dispositivos para estimular os inertes, despertar os tímidos, saiar os vorazes, exaltar os modestos, desenganar os múltiplos e corrigir os solitários...” ( Cem anos de solidão – Gabriel Garcia Marques).

P.S.: Esse texto é mais uma das biografias horizontais que, conforme prometido, irei publicando aos poucos no blog. Lembrando que as obras encontram-se devidamente registradas, sendo que qualquer cópia ou reprodução dependerá de prévia autorização do autor, no caso, eu... hehe!

Muito obrigado a todos os que têm me enviado scraps no Orkut, e-mails ou deixado postagens aqui no blog. Fico muito feliz que vocês estejam gostando e espero sempre contribuir para que todos tenham uma boa leitura e, conto também com a colaboração de todos. Postem aqui suas crônicas, suas poesias, seus desabafos, suas histórias, enfim, escrevam... faz bem para a mente e para a alma. Quem preferir pode enviar o texto para meu e-mail que eu publicarei com o maior prazer e, claro, identificarei devidamente o respectivo autor.
Abraços!

Roberto Ney O. Araújo Júnior
e-mail: robertoney@gmail.com