Todo indivíduo possui um potencial criador incomensurável. Um vórtice de idéias e ideais que se misturam ao acaso. Letras, palavras, sons e silêncio. Escrever é compartilhar sentimentos. Então, façamos desse vórtice um devorador de emoções. Escrevam e compartilhem.
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quarta-feira, 21 de agosto de 2013
A ave
Certa feita avistei uma ave,
Majestosa, imponente e envolta em um grande mistério,
Um anjo torto caído do céu.
Questionei-me, de logo, o sentido de ter asas,
Será mesmo bom ter tamanha liberdade?
Lembrei que também eu, outrora, as tive.
Dia após dia elas eram cuidadosamente aparadas,
Até que resolvi extirpá-las por completo.
Desaprendi a voar,
Fiquei inerte com o peso das dores e das responsabilidades,
Atônito com o império das horas,
E então, após tantos anos de desassossego,
Tranquei-me em uma grande gaiola.
A ave me trouxe de volta à esperança,
Mesmo ali, abatida pela crueldade humana,
Ela era livre
E, seu último suspiro rumo ao chão
Foi como um ilustre passo de dança.
Vê-la voar, ainda que rumo à morte,
Trouxe-me de volta à vida.
Quando dei por mim
Um grande par de asas brotou das minhas costas.
Uma lágrima molhou o largo sorriso,
E eu voei.
Este poema é dedicado à peça "A ave", um solo de Agamenon de Abreu com direção de Rino Carvalho. Fiz a crítica em forma de poema, pois o espetáculo é um convite à poesia. A ave nos remete a uma inexorável reflexão sobre o que fazemos com nossas horas. A ave nos relembra que ainda sabemos voar, precisamos apenas deixar que as asas cresçam. A trilha sonora é impecável, o roteiro é bastante conciso, sem perder a leveza e a atuação é surpreendente. De repente, após o espetáculo, um par de asas brotou no meio das minhas costas. E eu voei. Venha voar também. Avoa.
Mais informações sobre a peça na página: https://www.facebook.com/events/278485735629075/?fref=ts
Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.
sábado, 26 de novembro de 2011
Fugitivo

E não quero nada além
Do que preciso ou mereço,
Ser teu e não ser de ninguém,
Não te ter aqui em meu endereço.
Gosto de teus momentos marcantes
Querendo decifrar os meus segredos,
Mas me basta tua presença efêmera,
Teu adeus e o recomeço.
E não mais olhares nem meias palavras,
Nem abraços nas madrugadas frias,
Quero cigarros e portas abertas,
Encontros incertos e camas vazias.
Quero a incerteza do desencontro,
Sem beijos molhados, sem mágoas, sem prantos,
Sem conversas prolongadas e desajustadas,
Não quero mais nada,
Sem amor, sem encanto.
P.S. Esse poema já foi meu. Hoje, não mais.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Nudez
Nasci nu,
Mas a vida me vestiu de um jeito estranho,
Roupas pálidas com cortes imperfeitos,
Capas bordadas de um colorido sem tamanho.
Estilista excêntrica e deselegante,
Me despe com a pressa de um amante,
E me cobre depressa com outras possibilidades.
Essa vida que me ilumina com os holofotes da noite,
É a mesma que me esconde nas esquinas das cidades.
Cresci nu,
Mas tive que cobrir meu corpo com imagens,
Modelos que muitas vezes não me serviam,
Colares tais quais coleiras que me enforcavam.
Tive de usar sapatos apertados e alguns pés de palhaço,
Tive que fantasiar meus ideais para não assustar os que olhavam,
Por diversas vezes cheguei a ser coadjuvante do meu próprio espetáculo,
Só para não escancarar minha nudez.
Mas o tempo foi me ensinando
Que eu só devo vestir o que me faz bem,
Que os olhares oblíquos sempre me perseguirão,
E eu não quero nada além do que me convém.
Hoje visto roupas próprias, sem colares e sem disfarces,
Trago sempre a face nua,
E já não perco tanto tempo escolhendo o que usar,
Pois se eles oprimem minha nudez,
Também minhas vestes irão limitar.
Deixo que o vento siga seu curso,
Morrerei nu.
Mas a vida me vestiu de um jeito estranho,
Roupas pálidas com cortes imperfeitos,
Capas bordadas de um colorido sem tamanho.
Estilista excêntrica e deselegante,
Me despe com a pressa de um amante,
E me cobre depressa com outras possibilidades.
Essa vida que me ilumina com os holofotes da noite,
É a mesma que me esconde nas esquinas das cidades.
Cresci nu,
Mas tive que cobrir meu corpo com imagens,
Modelos que muitas vezes não me serviam,
Colares tais quais coleiras que me enforcavam.
Tive de usar sapatos apertados e alguns pés de palhaço,
Tive que fantasiar meus ideais para não assustar os que olhavam,
Por diversas vezes cheguei a ser coadjuvante do meu próprio espetáculo,
Só para não escancarar minha nudez.
Mas o tempo foi me ensinando
Que eu só devo vestir o que me faz bem,
Que os olhares oblíquos sempre me perseguirão,
E eu não quero nada além do que me convém.
Hoje visto roupas próprias, sem colares e sem disfarces,
Trago sempre a face nua,
E já não perco tanto tempo escolhendo o que usar,
Pois se eles oprimem minha nudez,
Também minhas vestes irão limitar.
Deixo que o vento siga seu curso,
Morrerei nu.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Signos
Os olhares nunca se cruzaram,
Mas os dedos deixam tudo às claras,
A expectativa do encontro,
Um pouco de vinho e algumas palavras.
Um oceano inteiro de distâncias,
Cada qual com suas reentrâncias e suas rotinas,
Unidos em silêncio por uma rede invisível,
Desbravadores do mundo e de suas esquinas.
Palavras lançadas ao sabor do vento,
Na esperança de levá-las até os atentos ouvidos,
Cada frase desvela dois livros abertos,
Um convite ao mistério do desconhecido.
Diferenças que saltam aos olhos desencontrados,
E a afinidade que aflora por entre os iguais,
Elocubrações que transpassam os limites das horas,
E o desejo que ultrapassa as previsões zodiacais.
Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.
P.S.: essas palavras foram lançadas para o outro lado do atlântico. Pode pegar, elas são suas...
quarta-feira, 27 de julho de 2011
A Loba - Sobre mulheres e outros labirintos

Amante da noite e dos mistérios da rua,
Abraça sem pudores para aquecer a ninhada,
Astuta e destemida para as lutas do dia,
Perspicaz para enfrentar as feras da madrugada.
Tem a ternura da mãe que se empresta ao filho,
E o sangue fervente dos que têm a coragem,
Tem os olhos e as danças de uma fera no cio,
Intimida os pequenos com seu instinto selvagem.
Com o dom protetor de quem lambre a cria,
Ela arrasta as tristezas por onde passa,
Estrutura seu bando com tamanha harmonia,
Não precisa de macho, pois também vai à caça.
Corre nua pelas matas, percorre novos caminhos,
Já não teme seus moinhos e é dona de suas palavras,
Tem na pele as cicatrizes dos que amam sem medidas,
Vai curando as feridas e desvendando suas ciladas.
À Carolina Pimentel... que de tão grande, não cabe em um poema, mas que de tão intensa, tantos poemas lhe cabem.
Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.
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terça-feira, 19 de julho de 2011
Curvas - Sobre mulheres e outros labirintos.

A luz intensa que aturdia os corpos,
A penumbra marcante que encobria os pudores,
E lá elas estavam.
Em meio a olhares atônitos e libidinosos,
Entre pernas e mãos e linguas e lábios,
Um convite para o universo indefinido da mulher.
Eram movimentos de serpente ao dar o bote certeiro,
Eram desejos que explodiam como um vulcão traiçoeiro.
Os nãos se tornaram obsoletos
E os sins romperam os medos,
Foram bundas e peitos e coxas e dedos.
Cada qual com suas reentrâncias e suas aspas,
Cada uma com seus avessos e com suas ciladas.
Eram bocas abertas contemplando a paisagem,
Os movimentos ariscos de uma gata selvagem.
Eram homens disformes diante de tantas curvas,
Tantos beijos que deixaram as palavras mudas.
Enfim... just for you!
Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço!
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quinta-feira, 30 de junho de 2011
Noite de São João
A palavra lançada ao desconhecido,
E a resposta ininteligível,
Os versos soltos inspirados pelo acaso,
E o encontro inesperado e aflito.
Foram tantos beijos encharcados de desejo,
E tantos medos subentendidos,
Alguns momentos regidos pelo silêncio,
Algo entre o atônito e o aturdido.
Uma rede invisível afastava os olhares,
E deixava os sorrisos desapercebidos,
Mas o afã de enfrentar o perigo covarde,
Derrubou as barreiras do outrora intransponível.
Era noite sem brilho, madrugada fria,
E acabei me embrenhando no indefinido,
Reticente e calmo fui me aproximando,
Fui chegando bem perto e fiquei envolvido.
Não pretendo fazer manobras que me deixem em perigo,
E tampouco elocubrar para o além do que for possível,
Mas não temo algumas quedas que porventura me aflijam,
Vou pular de cabeça no doce abismo do desconhecido.
Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.
P.S.: esse poema é todo seu, viu?
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Navegante

Sei que há um porto seguro,
Não vejo seu norte,
Nem sigo seu rumo,
Repouso calmamente em turbulentas águas
E confio minha sina numa búlssola biruta,
Tão indecisa, porém precisa.
Corajoso capitão de um barco de papel,
Deixo amores e dores em cada cais,
Já não temo os labirintos do mar,
Já não naufrado nas profundezas do céu.
Sempre que o escuro me intimida,
Apanho lá no fundo uma estrela atrevida,
E meu caminho se enche de luz,
E os bons ventos voltam a soprar
Rumo ao desconhecido,
E no mais inóspito dos esconderijos,
Planto flores, colho amigos
E faço meu lar.
Coimbra, 08/02/2010.
Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço!
domingo, 22 de maio de 2011
Sobre mulheres e outros labirintos - Os desertos das Anas...
Foi um faz-de-conta bem excêntrico,
Algo entre Tarantino e David Lynch,
Algumas noites de desassossego,
E o desejo que saltava dos olhos.
Eu era uma boa dose de conversa,
Bebida fina, mas que não saciava,
E no afã de aplacar a sede arfante,
Procuravas em outros copos a luxúria da embriaguez.
Mal sabias que eu queria muito mais do que conversas,
Queria o silêncio sonoro da tua boca na minha,
E além de ser a amiga para as noites quentes,
Desejava ser a mulher para tuas noites frias.
A proximidade do teu corpo me deixava aturdida,
E doía poder desfrutar de tua intimidade consentida.
Deixei de perceber a proposta de outros olhares,
Tive na mão alguns cantis, mas essa água já não me bastava,
Minha sede era tão grande que mergulhei em teu oásis falso,
Nadei no seco e afundei no nada.
Estou aprendendo a beber de outras águas,
E a não regar os buracos sem sementes,
Ainda tenho muita sede para matar,
Aceito os cantis e seus pretendentes.
"Troquei um cantil por um oásis falso, tive sede..."
(Ana Emília Primo Cavalcanti)
Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.
domingo, 15 de maio de 2011
O baile

A mulher era firme,
Não me dava bandeira,
E eu mendigando um sorriso,
Lhe dizia besteiras.
Se a chamava pra dança,
Ela logo saía,
Outro homem chegava,
E meu peito doía.
Mas o tempo não espera,
Foi daí que um dia,
Avistei uma moça
Que em um canto sorria.
Eu cheguei bem mais perto,
E a convidei pra dançar,
Ela disse: "por certo",
E flutuamos no ar.
A outra moça lá estava,
Com sua taça vazia,
O seu semblante já não me alegrava,
O seu perfume já não me aturdia.
E eu dançei feito um mestre-sala,
Feito um pierrô que vê sua colombina,
Logo o dia raiou e o baile terminava,
E eu ainda nos braços daquela menina.
Ela foi ao banheiro e voltou sorridete,
Deu-me um beijo dengoso e me entregou um bilhete,
Deu adeus bem depressa e nem disse seu nome,
Mas deixou no bilhete o seu telefone.
"que não seja imortal, posto que é chama..."
Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Hábito

Era uma vez o amor,
Que não resistiu a tantos anos de desencontros,
Tantos segredos lançados pela janela,
Tantas promessas vestidas pelo engano.
Alguns sorrisos camuflavam as lágrimas solitárias,
Apenas as madrugadas testemunhavam os prantos,
Foram longas conversas com palavras caladas,
Fotografias coloridas para enfeitar as molduras.
Feriam-se com dizeres tangentes e amolados,
Chupavam-se desesperados em doses homeopáticas,
Um escorado nas fraquezas do outro,
E varriam todos os cacos para debaixo da cama.
Acostumaram-se à rotina dos que esperam o povir.
Não se esforçavam para o mínimo suspiro de ousadia,
Alimentavam-se nas migalhas das noites frias,
Um com as unhas cravadas no coração do outro,
Sabotavam-se em um fluxo contínuo e louco,
E viveram por longos anos encenando suas horas,
Pernetas morimbundos que desaprenderam a andar.
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Sobre o amor e outras guerras
domingo, 17 de abril de 2011
Os fantasmas da praia - Sobre meninos e outras esquinas...

A penumbra distante que camufla a noite,
As palavras discretas que dissipam no vento,
Entre o mar tenebroso e as esquinas frias,
O faz de conta já não acontece.
Carros e luzes que encobrem os medos,
Sangue sugas sedentos atrás de desejo,
Satisfação efêmera de um eterno porvir,
Bocas abertas para parcos beijos.
Promessas e sussurros encharcados de álcool,
Cigarros apáticos piscando por entre os dedos,
Gritos abafados e alguns olhares de espanto,
Corpos disformes se exibindo pelos cantos.
Bizarro cenário de um pitoresco retrato,
Encenação pálida de um prazer inventado.
"Quem não sabe amar, fica esperando alguém que caiba no seu sonho,
como varizes que vão aumentando, como insetos em volta da lâmpada..."
Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.
Roberto Ney Araújo.
domingo, 3 de abril de 2011
Amores bêbados

Na cadência descompassada
Dos que tropeçam pela noite escura,
Com seus trapos desajustados,
Perdem-se desesperados
Em uma eterna procura,
E entre beijos encharcados de alcool,
Cambaleiam firmes por esquinas nuas,
Esmolam por mais alguns carinhos,
Arriscam mais algumas aventuras.
Procuram nos bares desertos,
Tumefactas flores murchas,
Bebem-se sem muitas promessas,
Despem-se sem muitas conversas,
Embriagam-se de desilusões.
Cambaleiam firmes por esquinas nuas,
Inventando paixões.
Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Vai

Não precisa despedida
E nem meias palavras,
Eu te deixo sem maldade,
Sem vaidade e sem mágoas,
Acostumei-me com fartura,
Não me servem mais migalhas.
Vai,
Que eu vou ver a tua sombra
Pela fresta da janela,
Já tranquei os meus desejos
Mas deixei a porta aberta,
O que me resta de você,
Nesse instante não me interessa.
Leve seus olhos, mas deixe o olhar,
Pois amanhã sei lá.
Use passos largos, mas vá devagar,
Vai levar um bom tempo
Para acostumar,
Mas ninguém sai perdendo,
Sempre há outro cais,
Ainda que esteja sofrendo,
Vai, e não olhe pra trás.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Ela

Um dia ela soube
Aquilo que o vento dizia,
Serva da esquina e da noite,
Diva, divã e vadia.
E tantos homens ousavam descer
Ao lugar que ninguem ao certo conhecia,
Nos labirintos do seu sexo,
Não havia quem não se perdia.
Ela gosta de côncavos e convexos,
Não procura nexo em sua fantasia,
Admira curvas e linhas retas,
Porventura indiscretas, mas repletas de poesia.
Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.
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Sobre mulheres e outros labirintos
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Guerreiro

E não me importa que venham os loucos,
E os tontos e os santos
Armados com seus paus ocos,
Que venham todos e outros tantos,
Os bocas moles e os covardes,
E os vanguardistas sem coragem,
Estou pronto!
Armado de idéias para os dedos tesos,
Para os falsos profetas
Ilusionistas do tempo,
E podem vir também os fantasmas,
Os falsos moralistas,
Não tenho medo.
Tenho garras afiadas e palavras tangentes,
Cicatrizes marcadas,
Mas curadas totalmente,
Já não temo mais qualquer batalha,
Tampouco ver meu sangue derramado,
Já perdi tanto sangue nas esquinas do mundo,
Vislumbrei tantos sonhos sendo estraçalhados,
Mas sempre me levantei e curei as feridas,
E os precipícios que me arrastaram
Foram todos ilustres tentativas.
Pois que venham os sorrisos impregnados de veneno,
E as máscaras de bondade,
Que venham todos,
Já não temo.
P.S.: Poema escrito em Coimbra/Portugal em 20/05/2010.
Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço!
domingo, 28 de novembro de 2010
Ser-tu, ser-não, sei-lá

Eu sou fluido como o vento,
E cada esquina desse mundo me compõe.
Tantos sorrisos, cigarros e tentações,
Universos de desencontros e nenhum deles é o meu.
Eu sou o além do além da física e da quântica
E da mística ininteligível,
Geometria nenhuma me dimensiona.
Houve um espelho que se quebrou em mil pedaços,
Fragmentados, era de dar dó,
Mas teimavam em refletir a mesma imagem,
Distorcidas, apáticas, desfocadas,
Também eu fui quebrado em mil pedaços,
Ando por aí a juntar caco por caco,
Sentimentos e desejos perambulantes ao acaso.
Sou tantos, mas todos verdadeiros.
Vez por outra desconheço alguns meus,
Afogado por um rio de possibilidades infindas,
Águas caudalosas transbordadas de eus,
Luto para emergir e enxergar os tus,
E após tanta briga me agarro nos teus.
Meus eus sem tu ser-não,
Alguns dos meus, são teus, eus.
Há muitos ainda pelo chão,
E outros escondidos nos breus.
O ser-não é um fantasma que me apavora,
Tive medo de serem teus, meus alguns eus,
Mas o vento só nos leva a ti agora,
Devora, sozinhos eus, adeus.
domingo, 7 de novembro de 2010
Não quero seu óbvio

Teu olhar passeia por tantos
Que não me vê,
Enquanto meus olhos
Entre os desencontros,
Só enxerga você,
Mergulho em teu ser
E imagino tua boca
Percorrendo meu corpo,
Tua mão corajosa
Tirando minha roupa
Sem muito esforço,
Mas você desconversa
E me diz "meu amigo",
Eu não quero seu óbvio,
Quero o seu precipício,
Que se atire em meu colo
E me deixe ser seu vício,
Já te conheço até pelo avesso,
Já te imagino em meu endereço.
Sinto saudade e um grande desgosto,
Se não tenho teu beijo roçando em meu rosto,
Sem a tua pele encostada na minha,
E o teu abraço que sempre me aninha.
Eu não quero despedida,
Quero a madrugada inteira.
Aquela tua mão atrevida
Que feito chama me incendeia,
Quero mergulhar em teu olhar,
Me perder em teus labirintos
E nunca mais me encontrar.
Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço!
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Plástico corpo quase humano

Olhem para mim,
Sou outra pessoa,
Alguém reconhece?
Meus seios inflados,
Meu rosto esticado,
Minha pele de bebê.
Meu nariz empinado
Foi se modificando
Sem eu perceber.
Me sentia poderosa,
Se saía na rua
Só ouvia “gostosa”,
E saía rebolando
Meu bumbum siliconado.
Me sentia a bacana
Quando ia trocar
Minhas unhas de porcelana.
Os meus cílios postiços
Ressaltavam as lentes
Azuis, é claro.
Meu cabelo pixaim, e preto e desarrumado,
Ficou loiro como o sol
E totalmente esticado.
Fui montando meus sonhos
Em meu rosto pintado,
Em meu corpo de sapatos
E grifes embalsamado.
Eu chegava arrasando,
Abafando, detonando,
Os homens me desejavam,
Idolatravam esse corpo
Criado por Deus,
E pelo homem esculturado.
Não faltavam coroas ricos
Querendo se exibir ao meu lado,
Pagando um bom trocado
Para romper novamente
Meu hímen remodelado.
Mas o tempo levou os homens,
Levou o dinheiro,
Levou o botox.
Meu corpo foi despedaçando,
Foi se ferindo, se mutilando,
Sangrando silicone ácido,
Corroendo um coração verdadeiro
Auxiliado por um bom marca-passo.
Virei um emaranhado de peles sobrepostas,
Um aglomerado de células mortas.
Minhas virgindades tantas vezes perdidas,
Levaram-me, uma a uma, o sabor do prazer.
Sinto-me agora monstruosa,
Apenas a morte não notou que estou morta,
E se esqueceu de vir buscar,
O corpo esquálido no qual me transformei
Quando queria apenas me encontrar.
Cada um deve ir em busca do que lhe convém. Mas não deixe que o espelho seja mais importante que sua sombra. Espelhos são como os olhos alheios. E se quiser a opinião de alguém que lhe ama de verdade, olhe-se com seus olhos.
Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.
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terça-feira, 14 de setembro de 2010
Eu, barco

Eu, barco, navego sem rumo,
Por entre as profundezas confusas do meu ser,
Tempestades de raios,
Vórtices de dúvidas,
Não temo.
Balanço inconstante ao sabor dos ventos,
São perigos solitários,
Esquinas de ilhas.
Vivo me perdendo entre os labirintos,
E escutando as sereias
Que me convidam pro abismo.
Mas de todos os riscos,
Dos faróis eu sempre fugia,
Sou navegante do desconhecido,
Só naufrago na calmaria.
Enfim estou de volta. E agora é - de novo - pra ficar!
Só quem escreve consegue dimensionar o quanto é gratificante receber o carinho dos ilustres leitores. Esse aqui, por mais exagerado que pareça, é meu grande templo de idéias. É meu refúgio. É onde eu divido com o mundo o que tenho de mais "meu". Espero que quem passe por aqui leve consigo um pouco do muito de mim. E, caso deseje, também deixe um pouco de você aqui. Vórtice é isso. É mistura. É turbilhão de idéias. Obrigado a todos os que visitam minha casa blogsférica. Podem entrar sem bater. Mi casa, su casa!
Beijo pra quem é de beijo.
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