domingo, 15 de maio de 2011

O baile


A mulher era firme,
Não me dava bandeira,
E eu mendigando um sorriso,
Lhe dizia besteiras.
Se a chamava pra dança,
Ela logo saía,
Outro homem chegava,
E meu peito doía.
Mas o tempo não espera,
Foi daí que um dia,
Avistei uma moça
Que em um canto sorria.
Eu cheguei bem mais perto,
E a convidei pra dançar,
Ela disse: "por certo",
E flutuamos no ar.
A outra moça lá estava,
Com sua taça vazia,
O seu semblante já não me alegrava,
O seu perfume já não me aturdia.
E eu dançei feito um mestre-sala,
Feito um pierrô que vê sua colombina,
Logo o dia raiou e o baile terminava,
E eu ainda nos braços daquela menina.
Ela foi ao banheiro e voltou sorridete,
Deu-me um beijo dengoso e me entregou um bilhete,
Deu adeus bem depressa e nem disse seu nome,
Mas deixou no bilhete o seu telefone.

"que não seja imortal, posto que é chama..."

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Hábito


Era uma vez o amor,
Que não resistiu a tantos anos de desencontros,
Tantos segredos lançados pela janela,
Tantas promessas vestidas pelo engano.
Alguns sorrisos camuflavam as lágrimas solitárias,
Apenas as madrugadas testemunhavam os prantos,
Foram longas conversas com palavras caladas,
Fotografias coloridas para enfeitar as molduras.
Feriam-se com dizeres tangentes e amolados,
Chupavam-se desesperados em doses homeopáticas,
Um escorado nas fraquezas do outro,
E varriam todos os cacos para debaixo da cama.
Acostumaram-se à rotina dos que esperam o povir.
Não se esforçavam para o mínimo suspiro de ousadia,
Alimentavam-se nas migalhas das noites frias,
Um com as unhas cravadas no coração do outro,
Sabotavam-se em um fluxo contínuo e louco,
E viveram por longos anos encenando suas horas,
Pernetas morimbundos que desaprenderam a andar.

domingo, 17 de abril de 2011

Os fantasmas da praia - Sobre meninos e outras esquinas...


A penumbra distante que camufla a noite,
As palavras discretas que dissipam no vento,
Entre o mar tenebroso e as esquinas frias,
O faz de conta já não acontece.
Carros e luzes que encobrem os medos,
Sangue sugas sedentos atrás de desejo,
Satisfação efêmera de um eterno porvir,
Bocas abertas para parcos beijos.
Promessas e sussurros encharcados de álcool,
Cigarros apáticos piscando por entre os dedos,
Gritos abafados e alguns olhares de espanto,
Corpos disformes se exibindo pelos cantos.
Bizarro cenário de um pitoresco retrato,
Encenação pálida de um prazer inventado.

"Quem não sabe amar, fica esperando alguém que caiba no seu sonho,
como varizes que vão aumentando, como insetos em volta da lâmpada..."

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.

Roberto Ney Araújo.

domingo, 3 de abril de 2011

Amores bêbados


Na cadência descompassada
Dos que tropeçam pela noite escura,
Com seus trapos desajustados,
Perdem-se desesperados
Em uma eterna procura,
E entre beijos encharcados de alcool,
Cambaleiam firmes por esquinas nuas,
Esmolam por mais alguns carinhos,
Arriscam mais algumas aventuras.
Procuram nos bares desertos,
Tumefactas flores murchas,
Bebem-se sem muitas promessas,
Despem-se sem muitas conversas,
Embriagam-se de desilusões.
Cambaleiam firmes por esquinas nuas,
Inventando paixões.

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Vai


Não precisa despedida
E nem meias palavras,
Eu te deixo sem maldade,
Sem vaidade e sem mágoas,
Acostumei-me com fartura,
Não me servem mais migalhas.
Vai,
Que eu vou ver a tua sombra
Pela fresta da janela,
Já tranquei os meus desejos
Mas deixei a porta aberta,
O que me resta de você,
Nesse instante não me interessa.
Leve seus olhos, mas deixe o olhar,
Pois amanhã sei lá.
Use passos largos, mas vá devagar,
Vai levar um bom tempo
Para acostumar,
Mas ninguém sai perdendo,
Sempre há outro cais,
Ainda que esteja sofrendo,
Vai, e não olhe pra trás.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Ela


Um dia ela soube
Aquilo que o vento dizia,
Serva da esquina e da noite,
Diva, divã e vadia.
E tantos homens ousavam descer
Ao lugar que ninguem ao certo conhecia,
Nos labirintos do seu sexo,
Não havia quem não se perdia.
Ela gosta de côncavos e convexos,
Não procura nexo em sua fantasia,
Admira curvas e linhas retas,
Porventura indiscretas, mas repletas de poesia.

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Guerreiro


E não me importa que venham os loucos,
E os tontos e os santos
Armados com seus paus ocos,
Que venham todos e outros tantos,
Os bocas moles e os covardes,
E os vanguardistas sem coragem,
Estou pronto!
Armado de idéias para os dedos tesos,
Para os falsos profetas
Ilusionistas do tempo,
E podem vir também os fantasmas,
Os falsos moralistas,
Não tenho medo.
Tenho garras afiadas e palavras tangentes,
Cicatrizes marcadas,
Mas curadas totalmente,
Já não temo mais qualquer batalha,
Tampouco ver meu sangue derramado,
Já perdi tanto sangue nas esquinas do mundo,
Vislumbrei tantos sonhos sendo estraçalhados,
Mas sempre me levantei e curei as feridas,
E os precipícios que me arrastaram
Foram todos ilustres tentativas.
Pois que venham os sorrisos impregnados de veneno,
E as máscaras de bondade,
Que venham todos,
Já não temo.

P.S.: Poema escrito em Coimbra/Portugal em 20/05/2010.

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço!

domingo, 28 de novembro de 2010

Ser-tu, ser-não, sei-lá


Eu sou fluido como o vento,
E cada esquina desse mundo me compõe.
Tantos sorrisos, cigarros e tentações,
Universos de desencontros e nenhum deles é o meu.
Eu sou o além do além da física e da quântica
E da mística ininteligível,
Geometria nenhuma me dimensiona.
Houve um espelho que se quebrou em mil pedaços,
Fragmentados, era de dar dó,
Mas teimavam em refletir a mesma imagem,
Distorcidas, apáticas, desfocadas,
Também eu fui quebrado em mil pedaços,
Ando por aí a juntar caco por caco,
Sentimentos e desejos perambulantes ao acaso.
Sou tantos, mas todos verdadeiros.
Vez por outra desconheço alguns meus,
Afogado por um rio de possibilidades infindas,
Águas caudalosas transbordadas de eus,
Luto para emergir e enxergar os tus,
E após tanta briga me agarro nos teus.
Meus eus sem tu ser-não,
Alguns dos meus, são teus, eus.
Há muitos ainda pelo chão,
E outros escondidos nos breus.
O ser-não é um fantasma que me apavora,
Tive medo de serem teus, meus alguns eus,
Mas o vento só nos leva a ti agora,
Devora, sozinhos eus, adeus.

domingo, 7 de novembro de 2010

Não quero seu óbvio


Teu olhar passeia por tantos
Que não me vê,
Enquanto meus olhos
Entre os desencontros,
Só enxerga você,
Mergulho em teu ser
E imagino tua boca
Percorrendo meu corpo,
Tua mão corajosa
Tirando minha roupa
Sem muito esforço,
Mas você desconversa
E me diz "meu amigo",
Eu não quero seu óbvio,
Quero o seu precipício,
Que se atire em meu colo
E me deixe ser seu vício,
Já te conheço até pelo avesso,
Já te imagino em meu endereço.
Sinto saudade e um grande desgosto,
Se não tenho teu beijo roçando em meu rosto,
Sem a tua pele encostada na minha,
E o teu abraço que sempre me aninha.
Eu não quero despedida,
Quero a madrugada inteira.
Aquela tua mão atrevida
Que feito chama me incendeia,
Quero mergulhar em teu olhar,
Me perder em teus labirintos
E nunca mais me encontrar.

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço!

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Plástico corpo quase humano


Olhem para mim,
Sou outra pessoa,
Alguém reconhece?
Meus seios inflados,
Meu rosto esticado,
Minha pele de bebê.
Meu nariz empinado
Foi se modificando
Sem eu perceber.
Me sentia poderosa,
Se saía na rua
Só ouvia “gostosa”,
E saía rebolando
Meu bumbum siliconado.
Me sentia a bacana
Quando ia trocar
Minhas unhas de porcelana.
Os meus cílios postiços
Ressaltavam as lentes
Azuis, é claro.
Meu cabelo pixaim, e preto e desarrumado,
Ficou loiro como o sol
E totalmente esticado.
Fui montando meus sonhos
Em meu rosto pintado,
Em meu corpo de sapatos
E grifes embalsamado.
Eu chegava arrasando,
Abafando, detonando,
Os homens me desejavam,
Idolatravam esse corpo
Criado por Deus,
E pelo homem esculturado.
Não faltavam coroas ricos
Querendo se exibir ao meu lado,
Pagando um bom trocado
Para romper novamente
Meu hímen remodelado.
Mas o tempo levou os homens,
Levou o dinheiro,
Levou o botox.
Meu corpo foi despedaçando,
Foi se ferindo, se mutilando,
Sangrando silicone ácido,
Corroendo um coração verdadeiro
Auxiliado por um bom marca-passo.
Virei um emaranhado de peles sobrepostas,
Um aglomerado de células mortas.
Minhas virgindades tantas vezes perdidas,
Levaram-me, uma a uma, o sabor do prazer.
Sinto-me agora monstruosa,
Apenas a morte não notou que estou morta,
E se esqueceu de vir buscar,
O corpo esquálido no qual me transformei
Quando queria apenas me encontrar.

Cada um deve ir em busca do que lhe convém. Mas não deixe que o espelho seja mais importante que sua sombra. Espelhos são como os olhos alheios. E se quiser a opinião de alguém que lhe ama de verdade, olhe-se com seus olhos.

Beijo pra quem é de beijo.
Abraço pra quem é de abraço.